quarta-feira, 15 de junho de 2011

Ainda Sobre o Tempo


    Parque Vila Velha (Paraná)      
    
            É estranho quando meu corpo memória traz o cheirinho do meu avô sempre às três da tarde. Meu corpo fantasia me faz flutuar ao imaginar o futuro que desejo e isto também é memória, já que meus sonhos, mesmo os não realizados compõem a minha história.
            Olhava horizontes que eu queria alcançar e transpor. Eu saí pelo mundo em odisséia a mim mesma. Meu arquétipo é do viajante solitário. Gosto de mapas e ampulhetas. Meu medo é retornar e não encontrar mais a Rosa. Pior é quando me deparo com uma mulher diferente da menina que fui aos 17 anos. A menina me diz sobre o que realmente sou. E é à ela que eu pergunto: - Estou no caminho certo? - Não, você está procurando atalhos. Você não entendeu nada do que eu queria! E eu, como fênix escalo o poço. Aí, a menina sorri e me diz: você continua a mesma! Não esqueceu dos meus sonhos legítimos e puros.
            A menina de oito e a moça de 17 anos nunca irão morrer. Elas estão felizes e protegidas em alguma gaveta do meu corpo memória. Os meus avós: Sr Chinchila e Sr Barão também estão em alguma gaveta do meu corpo. A bailarina dança no meu corpo lembrança. Olho meus pés, meus gestos, meu olhar e vejo a minha mãe. Olho uma criança de olhos grandes precisando de mim.
            Meu corpo. Minhas lembranças. Sou poeira com ares de diamante bruto. Embora, toda poeira é parte de um corpo espaço.
            O que você quer ser quando crescer?
            Eu queria ser bailarina e astronauta. 
           

Sobre o Tempo

        Raulzito

           Abro diversas gavetas no meu corpo memória. Em uma delas encontro a lembrança de um periquito que eu tinha quando pequena, que sempre quando morria meus pais o substituíam por um outro semelhante. Até que um dia, eu criança encucada perguntei: - A Kika não está diferente? Está um pouco marrom... Ela é amarela!
            Tenho diversos compartimentos no meu corpo memória: brincadeiras de rua, minhas pernas  finas ganhando campeonato de corrida, o jardim de infância, raspar o resto que ficou no tacho da massa do bolo, comer o restinho de Leite Moça, enrolar brigadeiros na véspera do meu aniversário esperando a comemoração com os amigos da rua. Lembro do Festival de Música, eu tomando água com chocolate na casa da Alessandra, torcendo pela Tetê Spíndola!!! E quando era exibido na televisão: E o vento levou! Eu quis tanto ser Scarlett.
            Sorrio quando lembro de Raulzito em cima da mesa ouvindo as fofocas de mãe e filha e as dúvidas de adolescente: - Mãe será que ele vai ligar? Agradeço por sentir saudades e ter a oportunidade de poder reencontrar Raulzito e minha mãe, ambos mais velhos e poder ainda dividir com eles as minhas experiências. Eu também estou mais velha.
            Quando adolescente um médico me disse: O tempo cura tudo! Concordo...
           

sábado, 4 de junho de 2011

O riso poético

Confesso que há uns quatro anos atrás, eu destetava tudo o que fosse relacionado ao humor. Em 2004, participei da oficina "Voz e Ação Vocal" com o ator Carlos Simioni do LUME Teatro, em que foi promovida uma rápida dinâmica de clown da qual fui voluntária, e que particularmente adorei a experiência de ser colocada na parede. Um grande amigo sempre me dizia que eu tinha um jeito para palhaça. Eu, respondia com uma careta: "Não, não, não...!!!".

Até que em 2007, assisti a dois espetáculos de clown. Adorei!! Ri pouco, mas em compensação... como chorei, lágrimas sutis que me aliviaram. Foi aí que decidi estudar a linguagem do palhaço.

Há dois anos estudo a linguagem. Comecei com Esio Magalhaes e Andrea Macera (Barracão Teatro), fui para Silvia Leblon, Ricardo Puccetti, Adelvane Néia. Agora, estou em uma fase de pesquisa teórica e prática. Pensando/jogando algumas idéias de números clownescos.




Lendo sobre a linguagem do palhaço, percebo que é essencial ser engraçado, o riso é condutor, matéria-prima. Mas não foi o riso que me levou ao estudo do clown. Foi algo mais próximo do reconhecimento, conforto, quase "memorial" de sentir-me em casa, próxima de minha mãe, de minha tia, de eu-Priscilla/criança. Foi esta sensação de sentir-me acolhida que me trouxe o desejo de ser palhaça. Embora eu reconheça que ainda sou uma palhaça argila, estou na idade do barro.

Quando vi este número (acima) do palhaço russo Popov, à primeira vista encantou-me a poesia através da música e da vontade dele de estar em foco, sob a luz; que ao final, ingênuo e feliz a leva consigo. Só depois ao analisar o número é que percebi que ele utilizou-se do cômico para revelar-se.


Daí, do que puxou-me para o palhaço é quero pesquisar. O poético dentro do cômico. Talvez este poético se dê através da memória, uma lembrança doce de reconhecimento.

Gentileza. É preciso ser gentil para rir de si mesmo.

"O humor, ao contrário, (da ironia) é uma manifestação da generosidade: sorrir daquilo que amamos é amá-lo duas vezes mais." (Pequeno Tratado das Grandes Virtudes - André Comte-Sponville/ Virtude: O Humor).

Se a pesquisa e criação de um personagem clown passa por uma viagem ao próprio ridículo, às próprias falhas: belas e feias, em que somos levados a rir de nós mesmos. O palhaço acaba sendo um espelho para que o público observe a sua própria humanidade.

Quando se "zomba do que detesta ou despreza, é ironia. Quando zomba do que ama ou estima, é humor. O que mais amo, o que estimo mais facilmente? Eu mesmo, como dizia Desproges. Isso diz o suficiente sobre a grandeza do humor, e sobre sua raridade. Como não seria uma virtude?" (Pequeno Tratado das Grandes Virtudes)

Aí me lembro: "Amar ao próximo como a ti mesmo". É preciso amar a si mesmo antes de amar o outro. É preciso rir de si mesmo para demonstrar afeto.

Os bufões  galhofam dos outros. Serão eles - irônicos?

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Memória Criativa e Experiência Pessoal – Um clown argila

Se o clown é pessoal, um eu dilatado, talvez o mais nu dos artistas. Penso que posso utilizar-me de experiências pessoais e memória criativa para a construção de minha Alecrim Scarlett e de um número cômico para ela. 2011 iniciou-se com intensas transformações pessoais. 360º. Doloridas e prazerosas, a minha necessidade como indivíduo é transformá-las em expressão artística.

Passei recentemente por dois lutos. Não passei … Não é passado. É presente!! Estou "experienciando"-os. Enquanto tive a presença física destas duas pessoas eu não as experimentei com FOME. Começo a conhecê-las agora, no vazio da perda. 

Café, eu criança deslocada, um parafuso que não se encaixa. À margem. As últimas refeições: frango com cogumelos ao molho de cerveja e pão de queijo. Uma foto: eu e minha prima aos 4 anos de idade, as netas caçulas. 

À tarde, o cheiro do quarto reinventado do meu tio que eu nunca conheci – o meu Animus. Meu amor platônico. As mãos mortas de meu avó materno sobre o próprio peito.

Passado e presente. Não existe divisória. Encontro-me em ambos os espaços. Onde estou?

Para a construção de minha Alecrim tenho como desejo pesquisar a memória. Criativa... ou não. Iniciarei a minha pesquisa pelo Bergson (Matéria e Memória).

Ah, a minha escrita é fragmentada. Desculpa. Assim como meus pensamentos. Vivo em um mosaico de lembranças, ... Com cores, colorida, sépia e preto e branco.


terça-feira, 3 de maio de 2011