sábado, 4 de junho de 2011

O riso poético

Confesso que há uns quatro anos atrás, eu destetava tudo o que fosse relacionado ao humor. Em 2004, participei da oficina "Voz e Ação Vocal" com o ator Carlos Simioni do LUME Teatro, em que foi promovida uma rápida dinâmica de clown da qual fui voluntária, e que particularmente adorei a experiência de ser colocada na parede. Um grande amigo sempre me dizia que eu tinha um jeito para palhaça. Eu, respondia com uma careta: "Não, não, não...!!!".

Até que em 2007, assisti a dois espetáculos de clown. Adorei!! Ri pouco, mas em compensação... como chorei, lágrimas sutis que me aliviaram. Foi aí que decidi estudar a linguagem do palhaço.

Há dois anos estudo a linguagem. Comecei com Esio Magalhaes e Andrea Macera (Barracão Teatro), fui para Silvia Leblon, Ricardo Puccetti, Adelvane Néia. Agora, estou em uma fase de pesquisa teórica e prática. Pensando/jogando algumas idéias de números clownescos.




Lendo sobre a linguagem do palhaço, percebo que é essencial ser engraçado, o riso é condutor, matéria-prima. Mas não foi o riso que me levou ao estudo do clown. Foi algo mais próximo do reconhecimento, conforto, quase "memorial" de sentir-me em casa, próxima de minha mãe, de minha tia, de eu-Priscilla/criança. Foi esta sensação de sentir-me acolhida que me trouxe o desejo de ser palhaça. Embora eu reconheça que ainda sou uma palhaça argila, estou na idade do barro.

Quando vi este número (acima) do palhaço russo Popov, à primeira vista encantou-me a poesia através da música e da vontade dele de estar em foco, sob a luz; que ao final, ingênuo e feliz a leva consigo. Só depois ao analisar o número é que percebi que ele utilizou-se do cômico para revelar-se.


Daí, do que puxou-me para o palhaço é quero pesquisar. O poético dentro do cômico. Talvez este poético se dê através da memória, uma lembrança doce de reconhecimento.

Gentileza. É preciso ser gentil para rir de si mesmo.

"O humor, ao contrário, (da ironia) é uma manifestação da generosidade: sorrir daquilo que amamos é amá-lo duas vezes mais." (Pequeno Tratado das Grandes Virtudes - André Comte-Sponville/ Virtude: O Humor).

Se a pesquisa e criação de um personagem clown passa por uma viagem ao próprio ridículo, às próprias falhas: belas e feias, em que somos levados a rir de nós mesmos. O palhaço acaba sendo um espelho para que o público observe a sua própria humanidade.

Quando se "zomba do que detesta ou despreza, é ironia. Quando zomba do que ama ou estima, é humor. O que mais amo, o que estimo mais facilmente? Eu mesmo, como dizia Desproges. Isso diz o suficiente sobre a grandeza do humor, e sobre sua raridade. Como não seria uma virtude?" (Pequeno Tratado das Grandes Virtudes)

Aí me lembro: "Amar ao próximo como a ti mesmo". É preciso amar a si mesmo antes de amar o outro. É preciso rir de si mesmo para demonstrar afeto.

Os bufões  galhofam dos outros. Serão eles - irônicos?

2 comentários:

  1. É,amiga! Sempre me "acusaram" de ser engraçado, de fazer comédia. E eu dizia que não. Que eu era simplesmente um poeta. Minha maior influência, quando comecei a escrever eram os ultra-românticos, aquela coisa bem melancólica. Jamais imaginei que viria personificar um palhaço. Mas, saiu assim sem querer. Ao ponto de me virem lágrimas aos olhos, ao me ver no video. "Esse aí, sou mesmo?" Mas é isso mesmo, o espirito humano é um monte de coisas, o que dirá então, o espirito do artista?
    Ele precisa ser liberto! Hoje, já não me preocupo em ser triste ou alegre artisticamente, deixo essa coisa vir. Essa lava multicolorida, numa erupção emocional... Hi...Acho que viajaei... Sabe do que mais gosto, ao te ler? Você me permite viajar...É...Eu viajo na sua viagem! Rsrs. E isso me faz tão bem! Obrigado!

    Bjo!!!!

    ResponderExcluir
  2. Oi André!!
    Obrigada!!
    Mas hoje digo que sou apaixonada pela linguagem do palhaço. Me transformou!!

    Bjs

    ResponderExcluir